Untitled (1977) – Menez (1926 – 1995)

Untitled (1977) – Menez (1926 – 1995)
oscar de marcos
Image by pedrosimoes7
Centro de Arte Manuel de Brito, CAMB, Palácio dos Anjos, Algés, Portugal

Material:
Collection : Manuel de Brito

BIOGRAPHY

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Maria Inês da Silva Carmona Ribeiro da Fonseca, de seu nome artístico Menez GOSE (Lisboa, 6 de Setembro de 1926 — 11 de Abril de 1995), foi uma pintora portuguesa.

Neta materna do general Óscar Carmona e de sua mulher Maria do Carmo Ferreira da Silva Carmona, teve uma infância cosmopolita, tendo vivido em Buenos Aires, Estocolmo, Paris, Suíça, Roma, Washington, DC e Lisboa, acompanhando as deambulações diplomáticas da família. Regressa a Portugal em 1951.

Menez nunca frequentou qualquer escola de arte. "Se o desenho fazia parte dos afazeres de uma menina prendada que nunca foi à escola («tive umas vagas lições de pintura»), é como autodidacta que descobre e se dedica à pintura". Começa a pintar apenas aos 26 anos de idade por iniciativa própria. Além de pintura, realizaria ainda trabalhos de cerâmica, gravura e serigrafia.

A sua primeira exposição, na Galeria de Março, Lisboa (1954), "constituiu uma autêntica revelação" .

Com uma carreira artística condicionada por questões de ordem familiar (infância dos filhos; morte prematura dos dois mais velhos em 1976 e 1977), "Menez foi […] apresentando sucessivas exposições individuais, com demorados intervalos, numa presença íntima e discreta"

. Expôs individualmente na Galeria Pórtico (1958); Galeria Diário de Notícias, Lisboa (1959, 61, 63); Galeria Divulgação, Lisboa (1964); Galeria 111, Lisboa (1966, 81, 85, 87, 90, 94); SNBA, Lisboa (1966); Galeria Judite Dacruz, Lisboa (1972); Galeria Quadrum, Lisboa (1977); Centro Cultural Português, FCG, Paris (1977); Galeria Zen, Porto (1981, 83, 89); Galeria Gilde, Guimarães (1988).

Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian no país (1960), e em Londres (1965-1969). Apresentou trabalhos em inúmeras exposições colectivas, nomeadamente na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian (1961), onde ganhou o segundo Prémio de Pintura.

Em 1990 o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian apresentou uma exposição antológica da sua obra. Nesse mesmo ano foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa.

A 9 de Junho de 1995 foi feita Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada a título póstumo.

OBRA

A sensibilidade poética das primeiras pinturas de Menez é reveladora da influência da Escola de Paris, da sua adesão a um tipo de abstração (abstracionismo lírico) que marcou a época. Lidando com um universo de sugestões múltiplas, "as suas imagens são uma encantação do desconhecido e têm em si suspenso o reflexo duma profundidade inomeada e oculta. […] Um por um cada quadro cria uma atmosfera que é como um habitat de seres e de histórias indefiníveis e fantásticas" cuja "existência concreta procura num espelho a imagem abstrata da sua essencialidade".

No final da década de 1950 a ambiguidade figuração/abstracção das suas atmosferas cromáticas adquire novos contornos, numa visão neo-impressionista que articula a sugestão de espaços interiores, "objectos oscilando na luz que entra por janelas imaginárias, […] interiores de ateliês ou de salas" que logo se abrem ao exterior, num jogo dinâmico entre "valores centrípetos e centrífugos do espaço natural da paisagem e do interior".

Numa explosão de cor e luz que se prolongará ao longo dos anos, Menez trabalha "uma harmonia de desarmonias ousadas com o cintilar da cor em pequenos incêndios de almofadas, tapetes, brocados, objetos nunca percetíveis como tais".

Os anos de 1960 são marcados pela estadia em Londres e por uma breve contaminação do idioma pop. Embora de forma subtil, sem entrar em rutura com a sua obra anterior, vemo-la assimilar elementos dessa linguagem em pinturas onde quase afirma objectos ou personagens. "As formas tomam contornos inesperados, anamorfizam-se, tornam-se objetos vivos e sem caracterização identificadora. Dotados de uma energia física incontrolada parecem crescer a partir de valores opostos, escalas de contrastes".

Menez nomeia algumas destas pinturas (atitude invulgar numa obra onde predominam os trabalhos sem título); é o que acontece em Henrique VIII, 1966, que lhe serve de pretexto para a criação de um "espetáculo de cores luxuriantes numa pintura de desenho orgânico, no seu simulacro de vestes ricas, de drapejados, de corpos sensuais" .

O período de indeterminação em que oscila entre figuração abstração prolonga-se pela década seguinte, apesar de assumir, pontualmente, a paisagem ou a figura de modo inequívoco. "Ainda aqui podemos confirmar a constante indisciplina na delimitação de uma fronteira entre o interior e o exterior dos espaços representados. […] Uma natureza-morta, um anjo, um coração, algumas topologias identificáveis, são sugestões figurativas com uma expressão idêntica às formas volumétricas que as acompanham e com que se articulam" . Victor Willing escreverá na introdução do catálogo de 1972: "Menez – uma visão tátil. […] Carne, pavor, dissolvem-se, montanhas, esvaem-se, transfiguram-se, e tinta coagula-se no lugar onde estiveram. As árvores curvam-se para observar tanta temeridade e aprovam".

Menez acompanha, de modo muito pessoal, a mudança de paradigma que conduz ao regresso da pintura figurativa na década de 1980, fixando-se num idioma ao qual permaneceria fiel até ao fim. Num primeiro momento, o efeito narrativo é produzido pela presença de cenas e personagens, por vezes diretamente reconhecíveis, mas que noutros trabalhos apenas deixam rastos da sua presença . "Não sei se deva falar em forma ou falar em tema, o tal tema que é em muitos casos perfeitamente legível, sobretudo nas peças de menores dimensões: tema mítico como o S. Jorge e o Dragão […], tema sagrado, ou cristão se preferirem, nas possíveis anunciações", a par de outros registos figurativos possíveis: "árvores, linhas de horizonte, mares ou lagos, ou planícies (?), promontórios…".

O aprofundamento da dimensão evocativa e carga de teatralidade das suas pinturas abre-lhe as portas à etapa seguinte. Menez centra-se na representação do seu próprio espaço de trabalho – o ateliê –, dando sequência a uma das principais linhas de força da sua obra, mas agora com um enquadramento diverso do inicial. Falando de si sem se auto-retratar, sem revelar qualquer envolvimento intimista ou psicológico, a sua pintura de espaços permite-lhe agora "um cruzamento infinito de possibilidades visuais pela capacidade de desmultiplicação que comporta. O modelo e o quadro, o cavalete e a janela, o dentro e o fora, trata-se aqui da citação da sua própria pintura e dos seus referentes. […] A teatralização do seu espaço privado abre-se episodicamente ao exterior, e à intervenção de outros personagens".

A última década da sua carreira é um tempo fulgurante. Menez sintetiza as descobertas sucessivas da sua obra em pinturas enigmáticas, contidas e teatrais onde confluem "elementos formais do seu período de abstracção lírica dos anos 60-70 com referências retiradas da História da pintura" . A sua vénia a mestres mais distantes pode traduzir-se num eco da sensibilidade e suspensão temporal de Bonnard ou De Chirico; mas agora, e de modo ainda mais explícito, a conexão com artistas de referência estende-se às figuras e poses inspiradas em Vermeer, Rubens ou Poussin (veja-se, por exemplo, o guache Sem título que serviu de matriz para As núvens, 1990). E torna-se igualmente claro o diálogo enriquecedor que estabelece com a obra de Paula Rego, com quem manteve uma longa relação de amizade.

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